Quem convive com crianças provavelmente já ouviu um “não quero provar!” diante de um prato com legumes, verduras ou frutas. Essa reação pode estar relacionada à neofobia alimentar, caracterizada pela resistência a experimentar alimentos desconhecidos. Nesses momentos, o segredo é ter paciência e oferecer oportunidades para que a criança conheça novos sabores e texturas sem se sentir pressionada.
Segundo a nutricionista Tania Abreu, frutas, verduras e legumes estão entre os grupos alimentares que costumam gerar mais rejeição na infância. “Uma das estratégias mais usadas é a exposição frequente dos alimentos que não gostam. Com a exposição frequente aos alimentos novos, passam a ser aceitos pela criança”, explica.
Outra possibilidade é variar a forma de preparo. Se a criança rejeita um legume cozido, por exemplo, ele pode ser apresentado em outra preparação, respeitando suas preferências e sem obrigá-la a experimentar.
Como dar autonomia sem deixar que a criança escolha só o que quer comer?
Respeitar as escolhas infantis não significa deixar que os pequenos decidam sozinhos tudo o que vão comer. O papel dos pais e cuidadores é oferecer alimentos variados e adequados à idade, enquanto a criança ganha espaço para explorar a comida e reconhecer os próprios sinais de fome e saciedade.
Tania destaca que a relação com os alimentos começa cedo, ainda nas primeiras experiências sensoriais do bebê. Durante a introdução alimentar, a criança passa a conhecer diferentes sabores, cheiros e texturas, em uma fase importante para o desenvolvimento de hábitos alimentares.
A nutricionista também ressalta a importância do exemplo familiar. Uma rotina com frutas, verduras, legumes, cereais e carnes, além de baixo consumo de ultraprocessados, ajuda a criar um ambiente favorável à alimentação variada.
Na prática, os adultos podem oferecer opções saudáveis, permitir que a criança participe de pequenas escolhas e respeitar quando ela demonstra saciedade. Assim, a autonomia é estimulada sem que a responsabilidade pela organização da alimentação fique inteiramente nas mãos dos pequenos.
Envolver a criança no preparo ajuda a diminuir a resistência?
Sim! Participar da rotina alimentar pode tornar os alimentos mais familiares e despertar a curiosidade infantil. A criança pode ajudar a escolher frutas no mercado, lavar ingredientes, misturar preparações ou organizar a mesa, sempre com tarefas adequadas à idade e supervisão de um adulto.
“O contato com as frutas, verduras e legumes durante o preparo da comida facilita a aceitação do alimento, por promover maior familiaridade e conhecimento das características do alimento, como cor, textura, formato e odor”, afirma Tania.
Essas experiências permitem que os pequenos conheçam os alimentos antes mesmo de prová-los. O objetivo não é garantir que comam tudo o que ajudaram a preparar, mas criar oportunidades positivas de contato com diferentes ingredientes.
O que dizer e o que evitar na hora das refeições?
Frases como “você precisa comer para ficar forte” ou “se não comer o espinafre, não vai ganhar sorvete” podem transformar a alimentação em uma negociação. De acordo com Tania, a pressão para consumir determinados alimentos pode estar associada à aversão e ao menor consumo.
A nutricionista explica que a aceitação alimentar depende tanto das características sensoriais dos alimentos quanto do ambiente familiar. Ver pessoas próximas comendo diferentes ingredientes pode deixar a criança mais confiante para conhecê-los.
Em vez de insistir ou usar recompensas, os responsáveis podem fazer convites sem obrigação, como: “Quer olhar esse alimento comigo?” ou “Você prefere a cenoura cortada assim ou de outro jeito?”. Se a criança não quiser provar, vale respeitar sua decisão e oferecer novamente em outra ocasião.
Como tornar a hora do jantar mais tranquila?
Uma das mudanças mais simples é reservar um momento para que a família coma junta. Além de fortalecer a convivência, as refeições compartilhadas permitem que a criança observe os hábitos dos adultos em um ambiente acolhedor.
Para Tania, a paciência é essencial nesse processo. “Comer junto com a família traz alegria, elogiar a comida servida ajuda a criança a comer com mais segurança e, principalmente, gostar da comida.”
Por isso, evite transformar o jantar em uma disputa sobre quantas colheradas a criança comeu. Ofereça alimentos variados, mantenha uma rotina possível para a família e permita que os pequenos desenvolvam suas preferências gradualmente.
Respeitar a criança não significa desistir de apresentar novos alimentos. Com exposição frequente, participação no preparo e menos pressão, é possível incentivar a curiosidade alimentar e construir uma relação mais tranquila com a comida.
Fontes:
- Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Básica nº 23 — Saúde da Criança: Aleitamento Materno e Alimentação Complementar.
- Maiz (2021). Referência mencionada pela nutricionista sobre exposição aos alimentos e participação infantil no preparo das refeições. Os dados bibliográficos completos não foram fornecidos.
- Alvarenga et al. Referência mencionada pela nutricionista sobre comportamento alimentar, autorregulação e introdução alimentar. Os dados bibliográficos completos não foram fornecidos.